segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mais uma história

O sapo que virou príncipe
        Como nos contos de fada aconteceu aquilo que a maior parte dos adultos deste país não acreditava que iriam testemunhar: a transformação da figura simbólica do sapo barbudo em príncipe, idolatrado pela burguesia, pelas classes médias e baixas e, até mesmo pelos céticos banqueiros. Esta história parece irreal e fantástica quando voltamos aos tempos de outrora, dos antagonismos da direita contra a esquerda e dos saudosos tempos da crença exacerbada na luta de classe como fundamento de eclosão  das transformações sociais que movem a história da humanidade.
Os princípios da democracia e da ética na política firmaram o pensamento da esquerda brasileira nos anos 80, após a queda da ditadura militar e assim também, as bases do programa de governo de Luiz em 1989, ao confrontar-se com Fernando I na campanha presidencial. A burguesia nacional, orquestrada pela mídia decidiu detonar o “sapo barbudo”, pois ele representava um perigo para os seus interesses. O último debate pela TV antes da eleição mostrava um Luiz acuado e nervoso diante do dossiê preparado pela oposição, com maestria sobre sua vida íntima e familiar. Com todo este aparato das comunicações a serviço da direita, Luiz, o candidato dos trabalhadores, perdeu a eleição, porém não desistiu da luta pelo poder. Ele se preparou mais uma vez para o novo confronto eleitoral que se realizaria em 1994, com Fernando Felipe, o candidato da burguesia. Outra eleição ocorreu em 1998, quando Luiz saíra  outra vez derrotado da disputa política.
 Foi naquela época que o Partido do Sapo (PS) desarticulou os seus núcleos de base e passou a priorizar a luta política-eleitoral, abandonando a organização social de base. Naquele momento o PS já tomava uma posição ideológica contraditória, pois deixava em segundo plano o seu capital maior que era a organização popular de base. José Dircele era o líder que guiava os passos do OS (Partido do Sapo) em direção ao poder, adotando uma postura  conservadora e pragmática, com o objetivo de ganhar setores sociais conservadores para a próxima disputa eleitoral. Mesmo assim, com essa estratégia tanto a eleição de 1994 como a de  1998  foram ganhas pelo partido dos tucanos, com Fernando Felipe como líder maior.
Porém, em 2002, já era reconhecido o desgaste político dos tucanos, Luiz avançava em direção ao poder central, desta vez só se fosse para ganhar a eleição, como ele mesmo dizia em sua pré-campanha eleitoral, quando ainda podia ser visto pelos mortais comuns militantes do PS. Em sua campanha eleitoral ele se comprometeu a fazer um governo voltado para a produção e o consumo de massa, para permitir a geração de empregos, condição fundamental para a inclusão de milhões de brasileiros no mercado de trabalho, ressucitando assim os fundamentos keynesianos.
Três meses antes da eleição Luiz reuniu toda a imprensa falada, escrita e televisada, em São Paulo, coração do capitalismo brasileiro, lançando uma Carta de compromisso, onde fazia promessas de cumprir todos os acordos assumidos pelos governos tucanos e fazer uma transição para superar a crise econômica. Na realidade, uma artimanha para iludir os militantes, porque na realidade Luiz, ao assumir o poder, adotou a mesma política neoliberal de Fernando I e Fernando II, em seus dois mandatos, mantendo nos cargos estratégicos figuras expressivas do tucanato.
Na realidade, esta chamada transição do governo do PS teria tudo para ser duradoura, pela natureza das alianças políticas, extremamente conservadoras e pelos fundamentos ortodoxos da política econômica adotada. Com a renovação do acordo com o FMI, em novembro de 2003 deu-se a certeza de que o governo se rendia ao capital financeiro internacional, adotando o neoliberalismo e levando-o às últimas conseqüências, com as chamadas reformas, seguindo o figurino do Fundo Monetário de arrocho fiscal em nome do mercado financeiro. Luiz, uma vez eleito, assumiu o populismo como prática maior, ao falar de “espetáculo de crescimento”, quando a fase de crescimento moderado da economia do país em 2004 e 2005 era apenas sofrível, na onda da conjuntura internacional favorável aos negócios internacionais.
No seu primeiro período de governo, era visível para todos que Luiz se distanciava dos trabalhadores e dos sindicatos, enquanto se aproximava cada vez mais da burguesia, pelo conteúdo das chamadas reformas, que representou um ajuste fiscal segundo o receituário neoliberal dos países capitalistas da época. Foi nessa época que os servidores públicos federais, acreditando que o Congresso agora seria verdadeiramente a casa do povo, foram recebidos pela tropa de choque da polícia militar, em manifestação contra as reformas.
Ao aproximar-se da burguesia conservadora e corrupta do país e se distanciar gradativamente dos trabalhadores, com seus projetos de governo, Luiz “o Sapo”, temido pela burguesia no passado, agora  passava pela metamorfose de se transformar em “Príncipe”, aceito e cultivado pelos conservadores e oportunistas. Luiz ao chegar no topo do poder, temendo as atitudes e compromissos da esquerda, resolveu  expulsar do seu partido os parlamentares chamados de radicais, enquanto o governo se aproximava ainda mais da direita para consolidar a sua base de apoio no parlamento. A renovação do acordo com o Fundo Monetário em novembro tirou as dúvidas que ainda restavam sobre os próximos passos do governo em direção à direita. Luiz e o grupo majoritário do PS, liderado por José Dircele passaram a combater os militantes que preservavam os princípios históricos do partido.
Ainda no primeiro mandato do Príncipe, em 2005 Dircele então ministro da Casa civil, organizou uma quadrilha dentro do Congresso para garantir a compra dos deputados para aprovação das propostas do seu governo, grupo que ficou conhecida por “mensalão”, que dava propinas milionárias por mês a cada deputado pra votar a favor do governo. Em agosto de 2007 o Supremo Tribunal recebeu a denúncia e moveu uma ação contra Dircele e mais outros quarenta ladrões envolvidos no crime, que foram processados criminalmente por formação de quadrilha, corrupção ativa ou passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, gestão fraudulenta e falsidade ideológica. Em 2011 os crimes irão prescrever, mas até hoje a ação penal se arrasta sem punição efetiva a nenhum dos autores do crime.
Nesse mar de lama que se instalou no reinado do Príncipe, ele afirmava sempre que nada sabia do que se passava em torno do Palácio e o povão acreditava em suas palavras, porque estava embriagado com as migalhas do seu programa “Minha bolsa, minha vida” voltado para os excluídos do mercado. Nessa orgia chegou pelo Ceará, província alencarina, o aprendizado de Dircele. O companheiro histórico dele José Legítimo, ex-guerrilheiro do Araguaia, foi cúmplice do “mensalão” e o seu irmão deputado José Gama, dono do poder no Banco do Nordeste, foi um dos beneficiados com a folia do dinheiro fácil, conforme circulou pela imprensa falada e escrita.  O deputado ficou  conhecido como o homem dos dólares na cueca, depois que um de seus assessores  foi flagrado no aeroporto de São Paulo portando uma mala de notas verdes, fato que repercutiu negativamente na reputação dos administradores daquele banco estatal. Em 2006 o então deputado estadual José Gama  se elegeu deputado federal, apenas três anos depois do escândalo, quando ainda estava presente na memória dos eleitores cearenses esta terrível história do “cuecagate”.
Muita falação se fez no reinado do Príncipe quando  apareceu mais uma onda de corrupção, desta vez o uso indevido dos cartões corporativos de  escalões do governo e da família do Príncipe. A novela dos excessos dos gastos dos integrantes do governo, da esposa, filhas e filhos do Príncipe ficou às claras não só em cartões corporativos, mas também em outras negociatas, envolvendo as poderosas empresas de comunicação e telecomunicação do país. Ninguém sabe até hoje como explicar a cortina de fumaça que se criou para impedir o controle dos cartões corporativos.
A mais recente de todas as revelações sobre corrupção no governo do Príncipe acontece depois de quase três anos de investigação pelo Ministério Público de São Paulo, acerca da Cooperativa habitacional dos Bancários de São Paulo, que virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou milhares de famílias na amargura. Elas revelaram que a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do Partido do Sapo.
Pela mídia se tomou conhecimento que um promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da cooperativa e a quebra de sigilo bancário do ex-bancário e ex-dirigente sindical. O presidente do sindicato mais forte do país, o dos bancários de São Paulo, era o responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, João Neto. Não é por acaso que este político foi nomeado o novo tesoureiro do PS  nesta conjuntura que antecede as eleições presidenciais.
Analisando esta conjuntura política, o intelectual Carlos Nelson Coutinho afirma que  a chegada do líder operário ao governo foi nociva para a esquerda, porque ninguém esperava que este governo fosse empreender por decreto o socialismo, mas pelo menos fizesse um forte reformismo. A decepção que isso provocou foi enorme, ainda mais por conta do “mensalão” e outros escândalos, que se tornaram  fatores limitativos para o processo de aprofundamento da democracia no Brasil. Ele  justifica isto, dizendo que o líder operário, uma vez no poder, cooptou os movimentos sociais, bloqueando o avanço democrático que havia até 2002, com acúmulo de forças da sociedade brasileira contra o neoliberalismo, a resistência desapareceu.
Sem oposição, o Príncipe continuou no poder por muito tempo, seguindo os princípios de Maquiavel, Luiz fez de conta desconhecer os desmandos que tomava conta do Palácio e sem escrúpulos acatou fraldes e negociatas, objetivando fortalecer a sua manutenção no poder. Tendo em vista o presumido bem comum, o Príncipe protegeu seu governo e seu partido político dos perigos que poderiam vir, procurou evitar discórdias internas e prevenir conspirações, para atingir o bem coletivo na sua concepção de líder, não importando quais os meios utilizados.

Apresentação do livro "Histórias reais e fantásticas"

Amanhã dia 09/11 estarei apresentando meu livro para os amigos e amigas no Bistrô Mistura Cenários, às 19:30 hs. Agradeço antecipadamente as presenças. Deixem aquí os seus comentários, eles são muito importantes.