terça-feira, 28 de setembro de 2010

Maracugina e Pimenta

Meus  amigos e amigas, estou compartilhando com vocês uma das crônicas mais recentes do meu livro "Histórias reais e fantásticas":
Maracugina e Pimenta
A política eleitoreira do Ceará em 2010 está sendo movida por muita maracugina nos debates para o fechamento de uma proposta de candidaturas de aliados do PS (Partido do Sapo) com os donos do poder que ocupam o trono neste atrasado território alencarino. O trono que foi ocupado por vinte anos pelo coronelismo de Cássio Jeremias, hoje cede lugar ao coronelismo dos Gomes, que por sua vez foram lançados na política por Cássio. Pois é exatamente este senhor o gerador da discórdia, com sua candidatura para continuar com os poderes de senador da República. Pois antes desta decisão tudo estava bem costurado na aliança do OS (Partido do Sapo) com os políticos conservadores do Estado, garantindo a continuidade do poder e a divisão dos gordos cargos políticos.
Quem poderia acreditar que o afamado tucano abandonaria a política para se dedicar aos seus prósperos negócios, como já tinha declarado, deixando nas mãos dos Gomes as decisões políticas e eleitoreiras do Estado? E até mesmo porque o governador Cidnei Gomes, de mãos dadas com a prefeita Luizinha (do PS), inimiga política de Cássio, lançava para senador seu amigo político José Pimenta (do PS). O deputado Pimenta, que ficou conhecido no Estado como o neo-pelego e traidor dos trabalhadores do setor público, ocupou até recentemente o cargo de ministro da Seguridade Social. Nesta disputa ele cantou de galo, pois com o apoio político de Luiz, seria o mais indicado para concorrer ao senado. E como ficaria o acordo anterior selado por Luiz, que garantia uma vaga para Vinicius, nas altas articulações do Planalto? Seriam três candidatos para duas vagas, quem abre mão de uma delas, para garantir que o bloco de alianças seja vitorioso? Foi neste cenário que surgiu a figura simbólica da maracugina, com amplos poderes medicinais para acalmar os nervos, aplacar o ódio, a cobiça e os altos interesses da política situacionista, nos debates acirrados dentro do arco de alianças.
Este cenário político ficou mais conturbado ainda com o lançamento da candidatura independente de Cirano Gomes, irmão do governador, para a Presidência da República, contra os interesses políticos de Luiz e de todo o bloco de suas alianças nacionais e locais. Desde 2009 que Luiz tentava iludir Cirano com uma candidatura pelo estado de São Paulo, onde o PS tem força política e muitos donos. Só mesmo Luiz acenava com essa possibilidade ou fingia que acreditava nisto, pois a tropa de deputados e senadores do seu partido já estava orquestrada contra tamanha ousadia do Sapo.
Na nova conjuntura de decisões para fechar os acordos políticos do Ceará, onde José Dircele bateu o martelo, como se tudo do mensalão estivesse esquecido, as articulações nacionais obrigaram Cirano a cair fora desta aventura independentista e se afastar temporariamente da vida política, em defesa da candidata Dilmita. A Prefeita Luizinha, que já estava certa de emplacar seu principal assessor político na vice do quase tucano Cidnei, ficou a ver navios. Só lhe restava agora uma única opção de candidatura pelo seu partido, José Pimenta como prêmio de consolação na formação da chapa situacionista ao senado. Hoje aliado político, Pimenta não inspira muita confiança, pois foi um dos companheiros do PS que combateu fortemente a primeira candidatura de Luizinha em 2004 a prefeitura de Fortaleza e a favor do candidato comunista apoiado por Luiz.
Com a bola toda ficou o governador Cidnei, o único candidato a governador com chance de vitória e com poderes para indicar os nomes que lhe convier, a exemplo de Cássio Jeremias, amigo político dos Gomes. E tudo voltará a ser como antes, o poder com os coronéis. Luizinha perdeu uma grande chance de fazer uma gestão democrática e popular, sem vícios políticos, quando foi eleita pelos movimentos populares e de base no município de Fortaleza. Porém, cercou-se de políticos conservadores e oportunistas e entregou as secretarias técnicas a pessoas despreparadas para assumir a responsabilidade de dar direção a uma cidade com mais de dois e meio milhões de habitantes, com mais de um terço destes nos estratos sociais de famílias que vivem em estado de pobreza absoluta.
Cidnei, ao contrário de Cirano - que foi governador e prefeito de Fortaleza, depois deputado federal, conhecido como machista, truculento e de linguagem chula – é um homem gentil, educado e agregador. O seu governo é constituído de políticos competentes e com capacidade de liderança, inclusive aqueles que vieram do PS. Assim, o abuso de poder e os desmandos administrativos correm por conta deste consenso criado dentro do aparelho do estado, onde pessedistas e tucanos convivem em clima de harmonia. Ele tem uma incrível capacidade de atrair as pessoas gananciosas pelo poder, pois sabe negociar elevadas moedas de troca. Desta forma, como todos balançam a cabeça, não tem oposição, quase todos estão na base governista.
Cidnei tem realizado um governo no estilo dos tucanos: projetos faraônicos, concebidos de cima pra baixo, sem consulta à população e sem estudos de impactos ambientais e de vizinhança, como os projetos do Aquário, que contrasta com a paisagem bucólica da Praia de Iracema, bairro histórico de Fortaleza, e o projeto de construção de um estaleiro na Praia do Titanzinho, que tanta polêmica tem provocado, por ser um lugar de vocação turística que abriga surfistas do país inteiro.
A conjuntura pré-eleitoral aponta para uma perda de poder político de Luizinha, ao lado do fortalecimento dos tucanos e partidos aliados, mesmo fazendo concessões, colocando em cheque a possibilidade de eleger o seu sucessor em 2012. Evidentemente, tudo vai depender dos resultados eleitorais ao nível nacional em 2010, com alternativos cenários de poder, mais prováveis entre o PS e aliados versus tucanos.





segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Crônica em homenagem à Marina

Do meu livro "Histórias reais e fantásticas": A Mulher guerreira que ameaça o poder

Maria Lima é uma mulher singela de estrutura física frágil, que esconde  uma fortaleza de força política, uma guerreira. Nascida e criada entre os seringais da Amazônia, ela foi um exemplo de mulher guerreira. Eleita senadora em 2002, foi convidada para assumir o importante cargo de Ministra do meio ambiente. Encontrou pouco apoio do Governo e muitas resistências políticas entre os representantes do agronegócio que vem desmatando a Amazônia de forma desavergonhada. Maria confessou ao deixar o cargo que tanto Luiz como Fernando II têm discursos bem formulados sobre o problema do meio ambiente, mas não passam do improviso, nada de concreto eles formularam para a preservação da Amazônia e para pensar na sustentabilidade para as gerações futuras.
Maria Silva viveu no seringal do Acre, até os 16 anos, enfrentando a floresta com respeito e cuidado. Ela diz emocionada: quem conhece a mata, não entra de peito aberto, mas com muita sutileza, pois ali estão o suprimento, a proteção e os perigos e também o mistério, algo não completamente revelado; idas e formas quase imperceptíveis. O encontro, a cada momento, de um cipó diferente, uma raiz, uma textura, uma cor, um cheiro e a descoberta dos sons. Até o vento na copa das árvores compõe melodias únicas, de acordo com a resistência oferecida pela castanheira e o açaizeiro.
É por isto que Maria defende a floresta com todas as suas forças. Enquanto Ministra ela tentou salvar a floresta dos grileiros, do agronegócio da madeira, da agropecuária e dos forasteiros que vem tomando conta daquele chão precioso, pela abundância dágua, pela riqueza de sua flora e fauna e pela biodiversidade e ecossistemas naturais. Muitos gringos estão de olho naquela selva, já tão devastada pela ganância dos madeireiros.
Na história de Maria a tradição cultural dos extrativistas e dos povos indígenas da Amazônia brasileira sempre foi um norte, um ponto de referência existencial que está sempre presente com ela quando precisa situar-se  diante de uma dificuldade ou da necessidade de tomar uma decisão. E nessa tradição, a existência da floresta nunca foi vista como um problema, mas sempre como uma solução. Pensando como os povos da floresta, ela nunca viu o modo de vida como algo que poderia vir a se beneficiar da destruição da floresta, porque ela sabe que esta nos fornece, em qualquer circunstância, os meios de sobrevivência. Chico Mendes transformou essa sabedoria dos povos da floresta em força política, quando entendeu, nos anos 80 do século passado, que o avanço da economia tradicional predadora sobre a floresta jamais poderia nos trazer vantagens, como nos diziam. Porque juntamente com a floresta também seriam destruídas nossa cultura e nossa identidade deste vasto território.
Chico Mendes foi assassinado, talvez exatamente por ter estas idéias, mas ainda hoje este ensinamento simples é necessário e vital porque contém um princípio universal e um grande ensinamento, o da convivência respeitosa com o ambiente natural, seja ele uma pequena parte da floresta amazônica, seja todo o planeta. Outro ensinamento dele é que não há proteção ambiental sem justiça social e sem alternativas econômicas sustentáveis.
Este ensinamento foi a bússola de Maria à frente do Ministério do Meio Ambiente no governo do Presidente Luiz, durante mais de cinco anos, acumulando conquistas e fixando marcos de referência que representam conquistas da sociedade brasileira. Com Maria no poder, foram  reduzidas as taxas de desmatamento em 57%, entre 2005 e 2007.  Novas instituições públicas foram implantadas, objetivando  a proteção e o uso da biodiversidade.
Foi assim que surgiu o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e o Serviço Florestal Brasileiro, implantado com um avançado sistema de monitoramento, que emite informações quase em tempo real e permite um ajuste permanente nas medidas de proteção  da maior floresta tropical do planeta.
No âmbito da cooperação internacional, Maria tem se empenhado fortemente em estruturar três importantes propostas: a redução do desmatamento e a instauração de um modelo de desenvolvimento sustentável na Amazônia; a criação do regime internacional de acesso aos recursos da biodiversidade com justa partilha de benefícios; e a criação de um fundo para outorgar incentivos positivos às reduções de emissões de gases de efeito estufa decorrentes da supressão de florestas tropicais. Maria está  sempre preocupada com um novo modelo de desenvolvimento, baseado na conservação da biodiversidade e no respeito às populações tradicionais. Assim, admite que nada do que se fizer contra uma parte da humanidade poderá ser chamado de progresso e nada que destrua esperanças de um mundo melhor terá apoio e sustentação no coração dos povos e no metabolismo da natureza.
No contexto em que vive a humanidade hoje, nunca foi tão forte o anseio por um denominador comum de valores humanistas de cooperação e desenvolvimento sustentável, como pensa Maria Silva. Nunca o diálogo foi tão intenso entre as experiências e movimentos, na direção das grandes transformações da história, em benefício da preservação do planeta e  com foco no  livre usufruto de recursos ilimitados colocados a nossa disposição.
Considerando o aquecimento global do planeta, para Leonardo Boff é fundamental diminuir  a velocidade deste processo. Se o termômetro da Terra subir para mais de dois graus Celsius, nos próximos decênios, como previstos pelos melhores centros de pesquisa, enfrentaremos no Brasil e no mundo a tribulação da desolação. Segundo revelações dele, muitos projetos já concluidos do PAC poderiam ser anulados, devido à insustentabilidade do sistema-Terra. A partir de setembro de 2008 ficamos sabendo que o planeta Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de repor os bens e serviços necessários para a vida. Estamos consumindo hoje o que precisaremos amanhã. Se quisermos universalizar o nivel de consumo das classes médias mundiais, incluídos os oitenta milhões de brasileiros, precisaríamos já agora de três Terras iguais a esta. Este modelo de crescimento, como parece subjacente ao PAC, mostra a sua inviabilidade a médio e a longo prazos. Devemos produzir de agora em diante, dentro de outro paradigma menos depredador do sistema-Terra, com um acordo de respeito aos ecossistemas e com uma ampla inclusão social.  Para o teólogo, o Brasil como a potência das águas e detentor das maiores florestas, com imensa biodiversidade e vastas terras agricultáveis, pode ser a mesa posta para as fomes do mundo inteiro, com capacidade incomparável de gerar energias alternativas.
         Pensando o papel do Brasil nesse contexto, Maria acredita que este seja um momento divisor de águas  para a cooperação internacional, pois  é urgente pensar uma estratégia conjunta para enfrentar a agenda de desafios na busca de um maior equilíbrio entre países pobres e ricos;  na maior racionalidade na destinação produtiva dos recursos disponíveis e na construção de um modo de vida sustentável, a começar pela matriz energética do século XXI. Assim, ela propõe reciclar os paradigmas da civilização atual, da mesma forma que chegamos ao engajamento em causas sociais e ambientais, esse caminho transformador em nossas vidas.
Na Conferência do clima em  Copenhague Maria Silva destacou-se entre as autoridades que defendem estratégias urgentes para salvar o planeta. Na expectativa de um acordo climático, a senadora fez um apelo para que os dirigentes mundiais não deixassem a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas sem o compromisso necessário para com as gerações futuras.
No momento conjuntural, com a corrida eleitoral para as eleições de 2010 as propostas surradas dos candidatos não sensibilizam os eleitores. As máquinas administrativa, financeira e dos partidos políticos falam mais alto e dão o tom da campanha. Porém, Maria não se intimida,  lançando-se nesta caminhada colecionando uma multidão de apoios: dos jovens, das mulheres e de pessoas simples que vêem nela a cara do Brasil e acreditam que ainda é possível salvar o planeta da selvageria da busca do lucro fácil, não importando quantos sejam os meios destrutivos.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Histórias reais e fantásticas

Meu novo livro "histórias reais e fantásticas" está chegando, contando historinhas sobre a política, os políticos e tudo que envolve a vida política nacional nos últimos 30 anos. É ver pra crer o fantástico da histórias de Collor, Lula e muitos outros políticos de renome nacional.