terça-feira, 15 de outubro de 2013

O gigante adormecido despertou

O gigante adormecido despertou As grandes mobilizações populares que tomaram conta do país nos dias de junho, por ocasião da realização do evento internacional denominado Copa das Confederações, foram eventos de enorme significado para a democracia brasileira. Eles denunciavam a corrupção e o descaso com a saúde, a educação e o transporte público, lembrando os acontecimentos que mobilizaram a juventude e sindicalistas brasileiros em todos os cantos do país, em 1992. O país estava adormecido pela recessão e pelo medo das demissões promovidas pelo governo da época. Os jovens brasileiros, de caras pintadas de verde-amarelo, foram às ruas em todo o Brasil para exigir a queda do Governo corrupto de Fernando Collor. O país vivia no início dos anos 90 uma situação de irregularidade política em plena democracia, após a reforma do Estado que privatizou os serviços públicos essenciais e os setores estratégicos da economia. Com a reforma administrativa veio a perseguição aos servidores públicos e aposentados. Governo sem lei, Collor não gostava de velhos, era um homem desportista, corria com seu séquito de bajuladores todas as manhãs ao redor do lago de Brasília. A previdência social era um antro de corrupção e maracutaias. O governo não tinha recursos para pagar os pensionistas e aposentados porque as grandes empresas sonegavam as suas contribuições; assim, os parcos recursos dos assalariados eram surrupiados pelos altos escalões do governo. O Ministro do Trabalho, antigo pelego do movimento sindical, realizava as negociatas mais escabrosas, em troca de polpudas propinas em dólares. O ministro da Saúde comprou milhares de bicicletas e mochilas superfaturadas e sem licitação em troca de gordas propinas, alegando urgência na campanha para combater a cólera. E ainda tem o caso do ministro do Exército, que comprou uniformes para a tropa com preços cinco vezes acima dos preços do mercado. Nas vésperas da Conferência Internacional sobre o meio ambiente no Rio de Janeiro, a RIO-92, Collor instalou uma milícia para-militar, que ficou conhecida por utilizar-se da perseguição assassina aos meninos de rua e aos mendigos. A indignação se avolumou e tomou conta do país, e junto com a juventude, todos ocuparam as ruas das grandes cidades exigindo o impeachment do governo. Cercando o Congresso Nacional foi dado o veredito final de Collor e sua quadrilha de corruptos, que se retiraram cabisbaixos do Palácio do Planalto. Exatamente dez anos depois do “fora Collor” o Brasil se mobilizou para eleger Lula, o grande líder dos trabalhadores brasileiros, que adotou uma prática populista, cooptou grande parcela das lideranças sindicais e políticas. Sua popularidade cresceu enormemente, fato que permitiu o entorpecimento dos movimentos populares e estudantis. A corrupção que tomou conta do governo lulista em seus dois mandatos veio à tona desde o primeiro ano de seu governo, com o esquema denominado “mensalão”, mas o país continuou adormecido. Quando veio a crise mundial, em 2008, Lula estimulou o consumo, endividado as classes médias e oferecendo aos grandes capitalistas da indústria automobilística redução drástica dos impostos, inundando as grandes cidades com frotas gigantescas, sem nada realizar na infraestrutura nas cidades, para manter a mobilidade urbana em níveis aceitáveis. E o transporte público permaneceu caótico. A corrupção cresceu e contaminou toda a máquina política do governo. Além disto, a saúde pública de tão deteriorada, chegou ao ponto de deixar acontecerem centenas de mortes nas filas de atendimento dos hospitais públicos. A educação não ficou por menos, privatizada e deteriorada em sua qualidade. A segurança pública envolvida em corrupção e crimes violentos. Os vinte centavos de aumento das passagens nos transportes públicos, reclamados pelos jovens que foram às ruas neste ano, foram apenas a gota d’água que revoltou a população, além dos gigantescos gastos em infraestrutura em estádios suntuosos para abrigar os jogos internacionais da Copa das Confederações e os da Copa a realizar-se em 2014. Foi assim que o gigante despertou, denunciando a corrupção e repudiando os partidos políticos, a juventude se mobilizou por meio das redes sociais, arrastando uma massa indignada com a falta de compromisso político do governo com aqueles que o elegeram. Agora estão se aproximando novas eleições e os políticos repetem tudo como em épocas anteriores, no jargão das promessas e dos conchavos políticos. Pra onde vai a fraca democracia deste nosso país? O gigante adormecido despertou As grandes mobilizações populares que tomaram conta do país nos dias de junho, por ocasião da realização do evento internacional denominado Copa das Confederações, foram eventos de enorme significado para a democracia brasileira. Eles denunciavam a corrupção e o descaso com a saúde, a educação e o transporte público, lembrando os acontecimentos que mobilizaram a juventude e sindicalistas brasileiros em todos os cantos do país, em 1992. O país estava adormecido pela recessão e pelo medo das demissões promovidas pelo governo da época. Os jovens brasileiros, de caras pintadas de verde-amarelo, foram às ruas em todo o Brasil para exigir a queda do Governo corrupto de Fernando Collor. O país vivia no início dos anos 90 uma situação de irregularidade política em plena democracia, após a reforma do Estado que privatizou os serviços públicos essenciais e os setores estratégicos da economia. Com a reforma administrativa veio a perseguição aos servidores públicos e aposentados. Governo sem lei, Collor não gostava de velhos, era um homem desportista, corria com seu séquito de bajuladores todas as manhãs ao redor do lago de Brasília. A previdência social era um antro de corrupção e maracutaias. O governo não tinha recursos para pagar os pensionistas e aposentados porque as grandes empresas sonegavam as suas contribuições; assim, os parcos recursos dos assalariados eram surrupiados pelos altos escalões do governo. O Ministro doTrabalho, antigo pelego do movimento sindical, realizava as negociatas mais escabrosas, em troca de polpudas propinas em dólares. O ministro da Saúde comprou milhares de bicicletas e mochilas superfaturadas e sem licitação em troca de gordas propinas, alegando urgência na campanha para combater a cólera. E ainda tem o caso do ministro do Exército, que comprou uniformes para a tropa com preços cinco vezes acima dos preços do mercado. Nas vésperas da Conferência Internacional sobre o meio ambiente no Rio de Janeiro, a RIO-92, Collor instalou uma milícia para-militar, que ficou conhecida por utilizar-se da perseguição assassina aos meninos de rua e aos mendigos. A indignação se avolumou e tomou conta do país, e junto com a juventude, todos ocuparam as ruas das grandes cidades exigindo o impeachment do governo. Cercando o Congresso Nacional foi dado o veredito final de Collor e sua quadrilha de corruptos, que se retiraram cabisbaixos do Palácio do Planalto. Exatamente dez anos depois do “fora Collor” o Brasil se mobilizou para eleger Lula, o grande líder dos trabalhadores brasileiros, que adotou uma prática populista, cooptou grande parcela das lideranças sindicais e políticas. Sua popularidade cresceu enormemente, fato que permitiu o entorpecimento dos movimentos populares e estudantis. A corrupção que tomou conta do governo lulista em seus dois mandatos veio à tona desde o primeiro ano de seu governo, com o esquema denominado “mensalão”, mas o país continuou adormecido. Quando veio a crise mundial, em 2008, Lula estimulou o consumo, endividado as classes médias e oferecendo aos grandes capitalistas da indústria automobilística redução drástica dos impostos, inundando as grandes cidades com frotas gigantescas, sem nada realizar na infraestrutura nas cidades, para manter a mobilidade urbana em níveis aceitáveis. E o transporte público permaneceu caótico. A corrupção cresceu e contaminou toda a máquina política do governo. Além disto, a saúde pública de tão deteriorada, chegou ao ponto de deixar acontecerem centenas de mortes nas filas de atendimento dos hospitais públicos. A educação não ficou por menos, privatizada e deteriorada em sua qualidade. A segurança pública envolvida em corrupção e crimes violentos. Os vinte centavos de aumento das passagens nos transportes públicos, reclamados pelos jovens que foram às ruas neste ano, foram apenas a gota d’água que revoltou a população, além dos gigantescos gastos em infraestrutura em estádios suntuosos para abrigar os jogos internacionais da Copa das Confederações e os da Copa a realizar-se em 2014. Foi assim que o gigante despertou, denunciando a corrupção e repudiando os partidos políticos, a juventude se mobilizou por meio das redes sociais, arrastando uma massa indignada com a falta de compromisso político do governo com aqueles que o elegeram. Agora estão se aproximando novas eleições e os políticos repetem tudo como em épocas anteriores, no jargão das promessas e dos conchavos políticos. Pra onde vai a fraca democracia deste nosso país?

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Especulação imobiliária em Fortaleza


Especulação imobiliária e infraestrutura precária  

É bastante visível o crescimento do setor imobiliário de Fortaleza nos últimos anos, com mudanças na paisagem urbana. Este setor sempre foi um vetor importante de crescimento da cidade, aliado ao setor da construção civil. Mas nestes três anos, esta expansão é um fenômeno que acontece nas grandes cidades brasileiras, por conta da Copa do Mundo a realizar-se em 2014. Este é um movimento do lado da oferta de imóveis, as incorporadoras estão apostando na continuidade do crescimento dos preços, investindo acima da capacidade de venda destes imóveis. Em 2012 o mercado esteve estagnado por falta de compradores, mas as imobiliárias não baixaram os preços, trabalhando com ofertas promocionais e negociação de preços.

Do lado da demanda o crescimento do crédito imobiliário deu sustentação a este otimismo do setor, além do crescimento da classe C que estava com a demanda reprimida. Hoje esta classe está endividada, por isto creio que esta bolha imobiliária tem um tempo marcado pra terminar, após a Copa. A especulação tem sido muito grande, mas onde haverá compradores para os enormes condomínios de luxo que estão sendo construídos no Cocó, Guararapes e em outros bairros da Regional VI?

Caminho diariamente pelas ruas do Guararapes e observo grandes obras de imóveis em construção, mas uma ausência de investimentos em infraestrutura: ruas pouco iluminadas, crateras abertas, fossas abertas em plena avenida, ruas com calçamento precário, pouca  sinalização horizontal e calçadas extremamente perigosas para quem se atreve a caminhar pelo bairro. A vegetação que era exuberante está se exaurindo.

Assim é que os grandes investimentos em infraestrutura em Fortaleza se restringem aos da mobilidade urbana, por conta da Copa. Não existem  projetos em saneamento básico e abastecimento de água, apenas manutenção do que existe. O problema maior são os impactos ambientais destas obras de mobilidade urbana, vejamos o exemplo do Cocó, quanto desmatamento pra se construir um viaduto! Uma cidade que tem a maior densidade demográfica do país e poucas áreas verdes não pode desconhecer os perigos que isto representa para o futuro da cidade: aumento da temperatura, redução da ventilação, deterioração da paisagem urbana e outros mais.

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mais uma história

O sapo que virou príncipe
        Como nos contos de fada aconteceu aquilo que a maior parte dos adultos deste país não acreditava que iriam testemunhar: a transformação da figura simbólica do sapo barbudo em príncipe, idolatrado pela burguesia, pelas classes médias e baixas e, até mesmo pelos céticos banqueiros. Esta história parece irreal e fantástica quando voltamos aos tempos de outrora, dos antagonismos da direita contra a esquerda e dos saudosos tempos da crença exacerbada na luta de classe como fundamento de eclosão  das transformações sociais que movem a história da humanidade.
Os princípios da democracia e da ética na política firmaram o pensamento da esquerda brasileira nos anos 80, após a queda da ditadura militar e assim também, as bases do programa de governo de Luiz em 1989, ao confrontar-se com Fernando I na campanha presidencial. A burguesia nacional, orquestrada pela mídia decidiu detonar o “sapo barbudo”, pois ele representava um perigo para os seus interesses. O último debate pela TV antes da eleição mostrava um Luiz acuado e nervoso diante do dossiê preparado pela oposição, com maestria sobre sua vida íntima e familiar. Com todo este aparato das comunicações a serviço da direita, Luiz, o candidato dos trabalhadores, perdeu a eleição, porém não desistiu da luta pelo poder. Ele se preparou mais uma vez para o novo confronto eleitoral que se realizaria em 1994, com Fernando Felipe, o candidato da burguesia. Outra eleição ocorreu em 1998, quando Luiz saíra  outra vez derrotado da disputa política.
 Foi naquela época que o Partido do Sapo (PS) desarticulou os seus núcleos de base e passou a priorizar a luta política-eleitoral, abandonando a organização social de base. Naquele momento o PS já tomava uma posição ideológica contraditória, pois deixava em segundo plano o seu capital maior que era a organização popular de base. José Dircele era o líder que guiava os passos do OS (Partido do Sapo) em direção ao poder, adotando uma postura  conservadora e pragmática, com o objetivo de ganhar setores sociais conservadores para a próxima disputa eleitoral. Mesmo assim, com essa estratégia tanto a eleição de 1994 como a de  1998  foram ganhas pelo partido dos tucanos, com Fernando Felipe como líder maior.
Porém, em 2002, já era reconhecido o desgaste político dos tucanos, Luiz avançava em direção ao poder central, desta vez só se fosse para ganhar a eleição, como ele mesmo dizia em sua pré-campanha eleitoral, quando ainda podia ser visto pelos mortais comuns militantes do PS. Em sua campanha eleitoral ele se comprometeu a fazer um governo voltado para a produção e o consumo de massa, para permitir a geração de empregos, condição fundamental para a inclusão de milhões de brasileiros no mercado de trabalho, ressucitando assim os fundamentos keynesianos.
Três meses antes da eleição Luiz reuniu toda a imprensa falada, escrita e televisada, em São Paulo, coração do capitalismo brasileiro, lançando uma Carta de compromisso, onde fazia promessas de cumprir todos os acordos assumidos pelos governos tucanos e fazer uma transição para superar a crise econômica. Na realidade, uma artimanha para iludir os militantes, porque na realidade Luiz, ao assumir o poder, adotou a mesma política neoliberal de Fernando I e Fernando II, em seus dois mandatos, mantendo nos cargos estratégicos figuras expressivas do tucanato.
Na realidade, esta chamada transição do governo do PS teria tudo para ser duradoura, pela natureza das alianças políticas, extremamente conservadoras e pelos fundamentos ortodoxos da política econômica adotada. Com a renovação do acordo com o FMI, em novembro de 2003 deu-se a certeza de que o governo se rendia ao capital financeiro internacional, adotando o neoliberalismo e levando-o às últimas conseqüências, com as chamadas reformas, seguindo o figurino do Fundo Monetário de arrocho fiscal em nome do mercado financeiro. Luiz, uma vez eleito, assumiu o populismo como prática maior, ao falar de “espetáculo de crescimento”, quando a fase de crescimento moderado da economia do país em 2004 e 2005 era apenas sofrível, na onda da conjuntura internacional favorável aos negócios internacionais.
No seu primeiro período de governo, era visível para todos que Luiz se distanciava dos trabalhadores e dos sindicatos, enquanto se aproximava cada vez mais da burguesia, pelo conteúdo das chamadas reformas, que representou um ajuste fiscal segundo o receituário neoliberal dos países capitalistas da época. Foi nessa época que os servidores públicos federais, acreditando que o Congresso agora seria verdadeiramente a casa do povo, foram recebidos pela tropa de choque da polícia militar, em manifestação contra as reformas.
Ao aproximar-se da burguesia conservadora e corrupta do país e se distanciar gradativamente dos trabalhadores, com seus projetos de governo, Luiz “o Sapo”, temido pela burguesia no passado, agora  passava pela metamorfose de se transformar em “Príncipe”, aceito e cultivado pelos conservadores e oportunistas. Luiz ao chegar no topo do poder, temendo as atitudes e compromissos da esquerda, resolveu  expulsar do seu partido os parlamentares chamados de radicais, enquanto o governo se aproximava ainda mais da direita para consolidar a sua base de apoio no parlamento. A renovação do acordo com o Fundo Monetário em novembro tirou as dúvidas que ainda restavam sobre os próximos passos do governo em direção à direita. Luiz e o grupo majoritário do PS, liderado por José Dircele passaram a combater os militantes que preservavam os princípios históricos do partido.
Ainda no primeiro mandato do Príncipe, em 2005 Dircele então ministro da Casa civil, organizou uma quadrilha dentro do Congresso para garantir a compra dos deputados para aprovação das propostas do seu governo, grupo que ficou conhecida por “mensalão”, que dava propinas milionárias por mês a cada deputado pra votar a favor do governo. Em agosto de 2007 o Supremo Tribunal recebeu a denúncia e moveu uma ação contra Dircele e mais outros quarenta ladrões envolvidos no crime, que foram processados criminalmente por formação de quadrilha, corrupção ativa ou passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, gestão fraudulenta e falsidade ideológica. Em 2011 os crimes irão prescrever, mas até hoje a ação penal se arrasta sem punição efetiva a nenhum dos autores do crime.
Nesse mar de lama que se instalou no reinado do Príncipe, ele afirmava sempre que nada sabia do que se passava em torno do Palácio e o povão acreditava em suas palavras, porque estava embriagado com as migalhas do seu programa “Minha bolsa, minha vida” voltado para os excluídos do mercado. Nessa orgia chegou pelo Ceará, província alencarina, o aprendizado de Dircele. O companheiro histórico dele José Legítimo, ex-guerrilheiro do Araguaia, foi cúmplice do “mensalão” e o seu irmão deputado José Gama, dono do poder no Banco do Nordeste, foi um dos beneficiados com a folia do dinheiro fácil, conforme circulou pela imprensa falada e escrita.  O deputado ficou  conhecido como o homem dos dólares na cueca, depois que um de seus assessores  foi flagrado no aeroporto de São Paulo portando uma mala de notas verdes, fato que repercutiu negativamente na reputação dos administradores daquele banco estatal. Em 2006 o então deputado estadual José Gama  se elegeu deputado federal, apenas três anos depois do escândalo, quando ainda estava presente na memória dos eleitores cearenses esta terrível história do “cuecagate”.
Muita falação se fez no reinado do Príncipe quando  apareceu mais uma onda de corrupção, desta vez o uso indevido dos cartões corporativos de  escalões do governo e da família do Príncipe. A novela dos excessos dos gastos dos integrantes do governo, da esposa, filhas e filhos do Príncipe ficou às claras não só em cartões corporativos, mas também em outras negociatas, envolvendo as poderosas empresas de comunicação e telecomunicação do país. Ninguém sabe até hoje como explicar a cortina de fumaça que se criou para impedir o controle dos cartões corporativos.
A mais recente de todas as revelações sobre corrupção no governo do Príncipe acontece depois de quase três anos de investigação pelo Ministério Público de São Paulo, acerca da Cooperativa habitacional dos Bancários de São Paulo, que virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou milhares de famílias na amargura. Elas revelaram que a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do Partido do Sapo.
Pela mídia se tomou conhecimento que um promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da cooperativa e a quebra de sigilo bancário do ex-bancário e ex-dirigente sindical. O presidente do sindicato mais forte do país, o dos bancários de São Paulo, era o responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, João Neto. Não é por acaso que este político foi nomeado o novo tesoureiro do PS  nesta conjuntura que antecede as eleições presidenciais.
Analisando esta conjuntura política, o intelectual Carlos Nelson Coutinho afirma que  a chegada do líder operário ao governo foi nociva para a esquerda, porque ninguém esperava que este governo fosse empreender por decreto o socialismo, mas pelo menos fizesse um forte reformismo. A decepção que isso provocou foi enorme, ainda mais por conta do “mensalão” e outros escândalos, que se tornaram  fatores limitativos para o processo de aprofundamento da democracia no Brasil. Ele  justifica isto, dizendo que o líder operário, uma vez no poder, cooptou os movimentos sociais, bloqueando o avanço democrático que havia até 2002, com acúmulo de forças da sociedade brasileira contra o neoliberalismo, a resistência desapareceu.
Sem oposição, o Príncipe continuou no poder por muito tempo, seguindo os princípios de Maquiavel, Luiz fez de conta desconhecer os desmandos que tomava conta do Palácio e sem escrúpulos acatou fraldes e negociatas, objetivando fortalecer a sua manutenção no poder. Tendo em vista o presumido bem comum, o Príncipe protegeu seu governo e seu partido político dos perigos que poderiam vir, procurou evitar discórdias internas e prevenir conspirações, para atingir o bem coletivo na sua concepção de líder, não importando quais os meios utilizados.

Apresentação do livro "Histórias reais e fantásticas"

Amanhã dia 09/11 estarei apresentando meu livro para os amigos e amigas no Bistrô Mistura Cenários, às 19:30 hs. Agradeço antecipadamente as presenças. Deixem aquí os seus comentários, eles são muito importantes.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Maracugina e Pimenta

Meus  amigos e amigas, estou compartilhando com vocês uma das crônicas mais recentes do meu livro "Histórias reais e fantásticas":
Maracugina e Pimenta
A política eleitoreira do Ceará em 2010 está sendo movida por muita maracugina nos debates para o fechamento de uma proposta de candidaturas de aliados do PS (Partido do Sapo) com os donos do poder que ocupam o trono neste atrasado território alencarino. O trono que foi ocupado por vinte anos pelo coronelismo de Cássio Jeremias, hoje cede lugar ao coronelismo dos Gomes, que por sua vez foram lançados na política por Cássio. Pois é exatamente este senhor o gerador da discórdia, com sua candidatura para continuar com os poderes de senador da República. Pois antes desta decisão tudo estava bem costurado na aliança do OS (Partido do Sapo) com os políticos conservadores do Estado, garantindo a continuidade do poder e a divisão dos gordos cargos políticos.
Quem poderia acreditar que o afamado tucano abandonaria a política para se dedicar aos seus prósperos negócios, como já tinha declarado, deixando nas mãos dos Gomes as decisões políticas e eleitoreiras do Estado? E até mesmo porque o governador Cidnei Gomes, de mãos dadas com a prefeita Luizinha (do PS), inimiga política de Cássio, lançava para senador seu amigo político José Pimenta (do PS). O deputado Pimenta, que ficou conhecido no Estado como o neo-pelego e traidor dos trabalhadores do setor público, ocupou até recentemente o cargo de ministro da Seguridade Social. Nesta disputa ele cantou de galo, pois com o apoio político de Luiz, seria o mais indicado para concorrer ao senado. E como ficaria o acordo anterior selado por Luiz, que garantia uma vaga para Vinicius, nas altas articulações do Planalto? Seriam três candidatos para duas vagas, quem abre mão de uma delas, para garantir que o bloco de alianças seja vitorioso? Foi neste cenário que surgiu a figura simbólica da maracugina, com amplos poderes medicinais para acalmar os nervos, aplacar o ódio, a cobiça e os altos interesses da política situacionista, nos debates acirrados dentro do arco de alianças.
Este cenário político ficou mais conturbado ainda com o lançamento da candidatura independente de Cirano Gomes, irmão do governador, para a Presidência da República, contra os interesses políticos de Luiz e de todo o bloco de suas alianças nacionais e locais. Desde 2009 que Luiz tentava iludir Cirano com uma candidatura pelo estado de São Paulo, onde o PS tem força política e muitos donos. Só mesmo Luiz acenava com essa possibilidade ou fingia que acreditava nisto, pois a tropa de deputados e senadores do seu partido já estava orquestrada contra tamanha ousadia do Sapo.
Na nova conjuntura de decisões para fechar os acordos políticos do Ceará, onde José Dircele bateu o martelo, como se tudo do mensalão estivesse esquecido, as articulações nacionais obrigaram Cirano a cair fora desta aventura independentista e se afastar temporariamente da vida política, em defesa da candidata Dilmita. A Prefeita Luizinha, que já estava certa de emplacar seu principal assessor político na vice do quase tucano Cidnei, ficou a ver navios. Só lhe restava agora uma única opção de candidatura pelo seu partido, José Pimenta como prêmio de consolação na formação da chapa situacionista ao senado. Hoje aliado político, Pimenta não inspira muita confiança, pois foi um dos companheiros do PS que combateu fortemente a primeira candidatura de Luizinha em 2004 a prefeitura de Fortaleza e a favor do candidato comunista apoiado por Luiz.
Com a bola toda ficou o governador Cidnei, o único candidato a governador com chance de vitória e com poderes para indicar os nomes que lhe convier, a exemplo de Cássio Jeremias, amigo político dos Gomes. E tudo voltará a ser como antes, o poder com os coronéis. Luizinha perdeu uma grande chance de fazer uma gestão democrática e popular, sem vícios políticos, quando foi eleita pelos movimentos populares e de base no município de Fortaleza. Porém, cercou-se de políticos conservadores e oportunistas e entregou as secretarias técnicas a pessoas despreparadas para assumir a responsabilidade de dar direção a uma cidade com mais de dois e meio milhões de habitantes, com mais de um terço destes nos estratos sociais de famílias que vivem em estado de pobreza absoluta.
Cidnei, ao contrário de Cirano - que foi governador e prefeito de Fortaleza, depois deputado federal, conhecido como machista, truculento e de linguagem chula – é um homem gentil, educado e agregador. O seu governo é constituído de políticos competentes e com capacidade de liderança, inclusive aqueles que vieram do PS. Assim, o abuso de poder e os desmandos administrativos correm por conta deste consenso criado dentro do aparelho do estado, onde pessedistas e tucanos convivem em clima de harmonia. Ele tem uma incrível capacidade de atrair as pessoas gananciosas pelo poder, pois sabe negociar elevadas moedas de troca. Desta forma, como todos balançam a cabeça, não tem oposição, quase todos estão na base governista.
Cidnei tem realizado um governo no estilo dos tucanos: projetos faraônicos, concebidos de cima pra baixo, sem consulta à população e sem estudos de impactos ambientais e de vizinhança, como os projetos do Aquário, que contrasta com a paisagem bucólica da Praia de Iracema, bairro histórico de Fortaleza, e o projeto de construção de um estaleiro na Praia do Titanzinho, que tanta polêmica tem provocado, por ser um lugar de vocação turística que abriga surfistas do país inteiro.
A conjuntura pré-eleitoral aponta para uma perda de poder político de Luizinha, ao lado do fortalecimento dos tucanos e partidos aliados, mesmo fazendo concessões, colocando em cheque a possibilidade de eleger o seu sucessor em 2012. Evidentemente, tudo vai depender dos resultados eleitorais ao nível nacional em 2010, com alternativos cenários de poder, mais prováveis entre o PS e aliados versus tucanos.





segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Crônica em homenagem à Marina

Do meu livro "Histórias reais e fantásticas": A Mulher guerreira que ameaça o poder

Maria Lima é uma mulher singela de estrutura física frágil, que esconde  uma fortaleza de força política, uma guerreira. Nascida e criada entre os seringais da Amazônia, ela foi um exemplo de mulher guerreira. Eleita senadora em 2002, foi convidada para assumir o importante cargo de Ministra do meio ambiente. Encontrou pouco apoio do Governo e muitas resistências políticas entre os representantes do agronegócio que vem desmatando a Amazônia de forma desavergonhada. Maria confessou ao deixar o cargo que tanto Luiz como Fernando II têm discursos bem formulados sobre o problema do meio ambiente, mas não passam do improviso, nada de concreto eles formularam para a preservação da Amazônia e para pensar na sustentabilidade para as gerações futuras.
Maria Silva viveu no seringal do Acre, até os 16 anos, enfrentando a floresta com respeito e cuidado. Ela diz emocionada: quem conhece a mata, não entra de peito aberto, mas com muita sutileza, pois ali estão o suprimento, a proteção e os perigos e também o mistério, algo não completamente revelado; idas e formas quase imperceptíveis. O encontro, a cada momento, de um cipó diferente, uma raiz, uma textura, uma cor, um cheiro e a descoberta dos sons. Até o vento na copa das árvores compõe melodias únicas, de acordo com a resistência oferecida pela castanheira e o açaizeiro.
É por isto que Maria defende a floresta com todas as suas forças. Enquanto Ministra ela tentou salvar a floresta dos grileiros, do agronegócio da madeira, da agropecuária e dos forasteiros que vem tomando conta daquele chão precioso, pela abundância dágua, pela riqueza de sua flora e fauna e pela biodiversidade e ecossistemas naturais. Muitos gringos estão de olho naquela selva, já tão devastada pela ganância dos madeireiros.
Na história de Maria a tradição cultural dos extrativistas e dos povos indígenas da Amazônia brasileira sempre foi um norte, um ponto de referência existencial que está sempre presente com ela quando precisa situar-se  diante de uma dificuldade ou da necessidade de tomar uma decisão. E nessa tradição, a existência da floresta nunca foi vista como um problema, mas sempre como uma solução. Pensando como os povos da floresta, ela nunca viu o modo de vida como algo que poderia vir a se beneficiar da destruição da floresta, porque ela sabe que esta nos fornece, em qualquer circunstância, os meios de sobrevivência. Chico Mendes transformou essa sabedoria dos povos da floresta em força política, quando entendeu, nos anos 80 do século passado, que o avanço da economia tradicional predadora sobre a floresta jamais poderia nos trazer vantagens, como nos diziam. Porque juntamente com a floresta também seriam destruídas nossa cultura e nossa identidade deste vasto território.
Chico Mendes foi assassinado, talvez exatamente por ter estas idéias, mas ainda hoje este ensinamento simples é necessário e vital porque contém um princípio universal e um grande ensinamento, o da convivência respeitosa com o ambiente natural, seja ele uma pequena parte da floresta amazônica, seja todo o planeta. Outro ensinamento dele é que não há proteção ambiental sem justiça social e sem alternativas econômicas sustentáveis.
Este ensinamento foi a bússola de Maria à frente do Ministério do Meio Ambiente no governo do Presidente Luiz, durante mais de cinco anos, acumulando conquistas e fixando marcos de referência que representam conquistas da sociedade brasileira. Com Maria no poder, foram  reduzidas as taxas de desmatamento em 57%, entre 2005 e 2007.  Novas instituições públicas foram implantadas, objetivando  a proteção e o uso da biodiversidade.
Foi assim que surgiu o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e o Serviço Florestal Brasileiro, implantado com um avançado sistema de monitoramento, que emite informações quase em tempo real e permite um ajuste permanente nas medidas de proteção  da maior floresta tropical do planeta.
No âmbito da cooperação internacional, Maria tem se empenhado fortemente em estruturar três importantes propostas: a redução do desmatamento e a instauração de um modelo de desenvolvimento sustentável na Amazônia; a criação do regime internacional de acesso aos recursos da biodiversidade com justa partilha de benefícios; e a criação de um fundo para outorgar incentivos positivos às reduções de emissões de gases de efeito estufa decorrentes da supressão de florestas tropicais. Maria está  sempre preocupada com um novo modelo de desenvolvimento, baseado na conservação da biodiversidade e no respeito às populações tradicionais. Assim, admite que nada do que se fizer contra uma parte da humanidade poderá ser chamado de progresso e nada que destrua esperanças de um mundo melhor terá apoio e sustentação no coração dos povos e no metabolismo da natureza.
No contexto em que vive a humanidade hoje, nunca foi tão forte o anseio por um denominador comum de valores humanistas de cooperação e desenvolvimento sustentável, como pensa Maria Silva. Nunca o diálogo foi tão intenso entre as experiências e movimentos, na direção das grandes transformações da história, em benefício da preservação do planeta e  com foco no  livre usufruto de recursos ilimitados colocados a nossa disposição.
Considerando o aquecimento global do planeta, para Leonardo Boff é fundamental diminuir  a velocidade deste processo. Se o termômetro da Terra subir para mais de dois graus Celsius, nos próximos decênios, como previstos pelos melhores centros de pesquisa, enfrentaremos no Brasil e no mundo a tribulação da desolação. Segundo revelações dele, muitos projetos já concluidos do PAC poderiam ser anulados, devido à insustentabilidade do sistema-Terra. A partir de setembro de 2008 ficamos sabendo que o planeta Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de repor os bens e serviços necessários para a vida. Estamos consumindo hoje o que precisaremos amanhã. Se quisermos universalizar o nivel de consumo das classes médias mundiais, incluídos os oitenta milhões de brasileiros, precisaríamos já agora de três Terras iguais a esta. Este modelo de crescimento, como parece subjacente ao PAC, mostra a sua inviabilidade a médio e a longo prazos. Devemos produzir de agora em diante, dentro de outro paradigma menos depredador do sistema-Terra, com um acordo de respeito aos ecossistemas e com uma ampla inclusão social.  Para o teólogo, o Brasil como a potência das águas e detentor das maiores florestas, com imensa biodiversidade e vastas terras agricultáveis, pode ser a mesa posta para as fomes do mundo inteiro, com capacidade incomparável de gerar energias alternativas.
         Pensando o papel do Brasil nesse contexto, Maria acredita que este seja um momento divisor de águas  para a cooperação internacional, pois  é urgente pensar uma estratégia conjunta para enfrentar a agenda de desafios na busca de um maior equilíbrio entre países pobres e ricos;  na maior racionalidade na destinação produtiva dos recursos disponíveis e na construção de um modo de vida sustentável, a começar pela matriz energética do século XXI. Assim, ela propõe reciclar os paradigmas da civilização atual, da mesma forma que chegamos ao engajamento em causas sociais e ambientais, esse caminho transformador em nossas vidas.
Na Conferência do clima em  Copenhague Maria Silva destacou-se entre as autoridades que defendem estratégias urgentes para salvar o planeta. Na expectativa de um acordo climático, a senadora fez um apelo para que os dirigentes mundiais não deixassem a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas sem o compromisso necessário para com as gerações futuras.
No momento conjuntural, com a corrida eleitoral para as eleições de 2010 as propostas surradas dos candidatos não sensibilizam os eleitores. As máquinas administrativa, financeira e dos partidos políticos falam mais alto e dão o tom da campanha. Porém, Maria não se intimida,  lançando-se nesta caminhada colecionando uma multidão de apoios: dos jovens, das mulheres e de pessoas simples que vêem nela a cara do Brasil e acreditam que ainda é possível salvar o planeta da selvageria da busca do lucro fácil, não importando quantos sejam os meios destrutivos.