segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Crônica em homenagem à Marina

Do meu livro "Histórias reais e fantásticas": A Mulher guerreira que ameaça o poder

Maria Lima é uma mulher singela de estrutura física frágil, que esconde  uma fortaleza de força política, uma guerreira. Nascida e criada entre os seringais da Amazônia, ela foi um exemplo de mulher guerreira. Eleita senadora em 2002, foi convidada para assumir o importante cargo de Ministra do meio ambiente. Encontrou pouco apoio do Governo e muitas resistências políticas entre os representantes do agronegócio que vem desmatando a Amazônia de forma desavergonhada. Maria confessou ao deixar o cargo que tanto Luiz como Fernando II têm discursos bem formulados sobre o problema do meio ambiente, mas não passam do improviso, nada de concreto eles formularam para a preservação da Amazônia e para pensar na sustentabilidade para as gerações futuras.
Maria Silva viveu no seringal do Acre, até os 16 anos, enfrentando a floresta com respeito e cuidado. Ela diz emocionada: quem conhece a mata, não entra de peito aberto, mas com muita sutileza, pois ali estão o suprimento, a proteção e os perigos e também o mistério, algo não completamente revelado; idas e formas quase imperceptíveis. O encontro, a cada momento, de um cipó diferente, uma raiz, uma textura, uma cor, um cheiro e a descoberta dos sons. Até o vento na copa das árvores compõe melodias únicas, de acordo com a resistência oferecida pela castanheira e o açaizeiro.
É por isto que Maria defende a floresta com todas as suas forças. Enquanto Ministra ela tentou salvar a floresta dos grileiros, do agronegócio da madeira, da agropecuária e dos forasteiros que vem tomando conta daquele chão precioso, pela abundância dágua, pela riqueza de sua flora e fauna e pela biodiversidade e ecossistemas naturais. Muitos gringos estão de olho naquela selva, já tão devastada pela ganância dos madeireiros.
Na história de Maria a tradição cultural dos extrativistas e dos povos indígenas da Amazônia brasileira sempre foi um norte, um ponto de referência existencial que está sempre presente com ela quando precisa situar-se  diante de uma dificuldade ou da necessidade de tomar uma decisão. E nessa tradição, a existência da floresta nunca foi vista como um problema, mas sempre como uma solução. Pensando como os povos da floresta, ela nunca viu o modo de vida como algo que poderia vir a se beneficiar da destruição da floresta, porque ela sabe que esta nos fornece, em qualquer circunstância, os meios de sobrevivência. Chico Mendes transformou essa sabedoria dos povos da floresta em força política, quando entendeu, nos anos 80 do século passado, que o avanço da economia tradicional predadora sobre a floresta jamais poderia nos trazer vantagens, como nos diziam. Porque juntamente com a floresta também seriam destruídas nossa cultura e nossa identidade deste vasto território.
Chico Mendes foi assassinado, talvez exatamente por ter estas idéias, mas ainda hoje este ensinamento simples é necessário e vital porque contém um princípio universal e um grande ensinamento, o da convivência respeitosa com o ambiente natural, seja ele uma pequena parte da floresta amazônica, seja todo o planeta. Outro ensinamento dele é que não há proteção ambiental sem justiça social e sem alternativas econômicas sustentáveis.
Este ensinamento foi a bússola de Maria à frente do Ministério do Meio Ambiente no governo do Presidente Luiz, durante mais de cinco anos, acumulando conquistas e fixando marcos de referência que representam conquistas da sociedade brasileira. Com Maria no poder, foram  reduzidas as taxas de desmatamento em 57%, entre 2005 e 2007.  Novas instituições públicas foram implantadas, objetivando  a proteção e o uso da biodiversidade.
Foi assim que surgiu o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e o Serviço Florestal Brasileiro, implantado com um avançado sistema de monitoramento, que emite informações quase em tempo real e permite um ajuste permanente nas medidas de proteção  da maior floresta tropical do planeta.
No âmbito da cooperação internacional, Maria tem se empenhado fortemente em estruturar três importantes propostas: a redução do desmatamento e a instauração de um modelo de desenvolvimento sustentável na Amazônia; a criação do regime internacional de acesso aos recursos da biodiversidade com justa partilha de benefícios; e a criação de um fundo para outorgar incentivos positivos às reduções de emissões de gases de efeito estufa decorrentes da supressão de florestas tropicais. Maria está  sempre preocupada com um novo modelo de desenvolvimento, baseado na conservação da biodiversidade e no respeito às populações tradicionais. Assim, admite que nada do que se fizer contra uma parte da humanidade poderá ser chamado de progresso e nada que destrua esperanças de um mundo melhor terá apoio e sustentação no coração dos povos e no metabolismo da natureza.
No contexto em que vive a humanidade hoje, nunca foi tão forte o anseio por um denominador comum de valores humanistas de cooperação e desenvolvimento sustentável, como pensa Maria Silva. Nunca o diálogo foi tão intenso entre as experiências e movimentos, na direção das grandes transformações da história, em benefício da preservação do planeta e  com foco no  livre usufruto de recursos ilimitados colocados a nossa disposição.
Considerando o aquecimento global do planeta, para Leonardo Boff é fundamental diminuir  a velocidade deste processo. Se o termômetro da Terra subir para mais de dois graus Celsius, nos próximos decênios, como previstos pelos melhores centros de pesquisa, enfrentaremos no Brasil e no mundo a tribulação da desolação. Segundo revelações dele, muitos projetos já concluidos do PAC poderiam ser anulados, devido à insustentabilidade do sistema-Terra. A partir de setembro de 2008 ficamos sabendo que o planeta Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de repor os bens e serviços necessários para a vida. Estamos consumindo hoje o que precisaremos amanhã. Se quisermos universalizar o nivel de consumo das classes médias mundiais, incluídos os oitenta milhões de brasileiros, precisaríamos já agora de três Terras iguais a esta. Este modelo de crescimento, como parece subjacente ao PAC, mostra a sua inviabilidade a médio e a longo prazos. Devemos produzir de agora em diante, dentro de outro paradigma menos depredador do sistema-Terra, com um acordo de respeito aos ecossistemas e com uma ampla inclusão social.  Para o teólogo, o Brasil como a potência das águas e detentor das maiores florestas, com imensa biodiversidade e vastas terras agricultáveis, pode ser a mesa posta para as fomes do mundo inteiro, com capacidade incomparável de gerar energias alternativas.
         Pensando o papel do Brasil nesse contexto, Maria acredita que este seja um momento divisor de águas  para a cooperação internacional, pois  é urgente pensar uma estratégia conjunta para enfrentar a agenda de desafios na busca de um maior equilíbrio entre países pobres e ricos;  na maior racionalidade na destinação produtiva dos recursos disponíveis e na construção de um modo de vida sustentável, a começar pela matriz energética do século XXI. Assim, ela propõe reciclar os paradigmas da civilização atual, da mesma forma que chegamos ao engajamento em causas sociais e ambientais, esse caminho transformador em nossas vidas.
Na Conferência do clima em  Copenhague Maria Silva destacou-se entre as autoridades que defendem estratégias urgentes para salvar o planeta. Na expectativa de um acordo climático, a senadora fez um apelo para que os dirigentes mundiais não deixassem a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas sem o compromisso necessário para com as gerações futuras.
No momento conjuntural, com a corrida eleitoral para as eleições de 2010 as propostas surradas dos candidatos não sensibilizam os eleitores. As máquinas administrativa, financeira e dos partidos políticos falam mais alto e dão o tom da campanha. Porém, Maria não se intimida,  lançando-se nesta caminhada colecionando uma multidão de apoios: dos jovens, das mulheres e de pessoas simples que vêem nela a cara do Brasil e acreditam que ainda é possível salvar o planeta da selvageria da busca do lucro fácil, não importando quantos sejam os meios destrutivos.

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